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A Mulher Torta

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“Se a gente cresce com os golpes duros da vida,
também podemos crescer com os toques suaves na alma.”
(Cora Coralina)

Estávamos no Centro de Referência de Assistência Social e o Grupo (de Mulheres) Renascer havia iniciado mais um encontro. Maria das Dores, por detrás dos óculos com arame nas articulações, fez o desenho de uma figura humana, como eu havia solicitado.

Ao apresentá-lo, apontou para um desenho pequeno posicionado no alto da folha A4 em orientação vertical e disse: “- É uma mulher. E ela é torta”. Ajustou os óculos com o dedo indicador, olhou temerosa ao redor e prosseguiu: “- Mas não é porque eu não sei desenhar, é porque ela sofreu muito”. A voz tornou-se embargada: “- Os braços são tortos, as pernas; o corpo achatado; a cabeça pequena. Ela andou muito pelo mundo inteiro à procura de uma pessoa. E isso a fez entortar, porque ela sofreu”. Abaixou a cabeça, reajustou os óculos e silenciou. Maria da Consolação, ao seu lado, confortou a amiga: “- Mas na vida, é com o sofrimento que a gente aprende e alcança a felicidade”.

E se depois de alguns minutos a dinâmica prosseguiu e Maria das Dores pôde sorrir ao relatar um final feliz para a sua Mulher Torta, essa imagem perdurou em mim. Consumiu-me. Vi, inúmeras vezes essa mulher, torta, caminhar e entortar. E esse simbolismo denunciou a realidade.

Não é que, de fato, entortamos? Alguns fardos são pesados demais sobre nossos ombros, fazem-nos curvar a coluna. Os joelhos dobram. O pescoço perde o tônus; a voz a impostação; o olhar a direção. Dizem, constantemente, que o sofrimento nos ensina a viver. Certamente o faz, mas a duras penas. Quando vejo essas pessoas, entortadas pela vida, penso o quanto nossa cultura é incoerente. Ter postura, olhar vivo, voz empostada e joelhos firmes parece quase uma afronta ao destino. Espera-se que soframos para que a felicidade chegue lenta e tardia. De que serve a felicidade se já não podemos mais endireitar os passos?

E qual sociedade é essa que afirma e contenta-se em deformar para evoluir? Isso é necessário? O que nos faz ver beleza na dor? Maria das Dores não viu. Carrega a dor no nome, nos gestos, na fala e nos sonhos. Sua heroína estava abatida à espera de um milagre. Quando aprendemos que o sofrimento ensina, a vida fica à mercê de vivências dolorosas e passamos a esperar que elas se tornem, quase que por piedade, vivências felizes.

É evidente que devemos aprender com os com os reveses e as agruras da vida. Esse caminho, contudo, não precisa ser o único. É, na verdade, a exceção. Os poetas já conhecem o caminho e nós devemos estar atentos: a vida não tem que ser cruel e aprender não deve ser um infortúnio. As pessoas tortas refletem uma sociedade corrompida pela dor. O que parece estrutural não é, e precisa ser questionado. É preciso ser leve. Que tal substituir nossa crença no sofrimento pela crença no bem-estar? Podemos, e devemos, aprender por meio de suaves toques na alma.

Em tempo: e se a Mulher Torta de Maria das Dores, por fim, encontrou quem tanto procurava e foi feliz para sempre, vale dizer que um desfecho nem sempre traz felicidade. E no caso dessa mulher, já doente, modificada e sofrida, a caminhada foi tão aversiva que o fim não foi alegria, foi alívio.

Autor: SAMUEL SILVA, terapeuta analítico-comportamental, membro da Equipe Ghoeber Morales | Terapia & Coaching

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